sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

O começo de tudo


Inicio de ano sempre parece a mesma coisa, só que não é. Não naquele ano, o professor Heitor sabia que estava diante de um golpe e bem que tentou fazer seus contatos se rebelarem, só que era mais cômodo ficar onde estavam do que se rebelar contra um governo que mantinha as aparências. O que para seus amigos era real, para Heitor não passava de pura ilusão. E por mais que Heitor tentasse transmitir a verdade, ele era considerado um louco. Pra falar a verdade Heitor ficava extremamente  incomodado de como as pessoas poderiam ficar tão cegas, ao ponto de não perceberem o desastre que se levantava na frente de todos. Chegou a conversar com outros professores, só que os mesmos não se interessavam pelo assunto ou apenas estavam mais preocupados em pagar suas contas. De fato, pagar contas era um desafio bem difícil de conseguir. 

Meios para favorecer a ilusão não lhe faltavam. As pessoas tinham pequenas caixas mágicas, que faziam de tudo, de tele-transporte até multiplicação de amigos. Só não multiplicava renda de quem a possuía. De fato, era um mundo estranho. Bem estranho. Só pra você ter uma noção de como eram aquelas pessoas que viviam na mesma realidade de Heitor, basta você saber que quase ninguém mantinha relações pessoais fisicamente, as pessoas se relacionavam através de suas caixas mágicas. Era praticamente inviável pensar em viver sem aquelas caixinhas. Só que o que ninguém esperava é que aquelas caixinhas iriam se voltar contra seus donos.   

Poderia chamar de a revolta das caixinhas. Mas revolta não se aplica. Sabe por quê? Uma revolta é percebível por todos aqueles que são afetados. Por isso é um golpe. Sim, um golpe, o golpe das caixinhas. As pessoas daquele lugar pensavam que o governo não manipulava as caixinhas. Mas o governo manipulava as caixinhas ao ponto de muitos se quer imaginavam que aquilo era possível. Por isso ninguém desconfiava das caixinhas. As caixinhas eram uma espécie de transmissores de informações para o governo. Tudo o que você usava nas caixinhas era passado para o governo e o pior que era passado inclusive os elementos do ambiente onde elas estavam mesmo que você apenas tenha apenas entrado numa sala. Sem você saber as caixinhas tinha passado todas as informações para o governo do que havia naquela sala. Se aquelas caixinhas faziam isso, não seria mistério pra ninguém que todas as conversas realizadas próximo a uma caixinha eram igualmente transmitidas ao governo. 

Agora você pode se perguntar. Como Heitor descobriu isso? Ele não descobriu, ele deduziu. Heitor tinha uma caixinha, e a dele que não era das mais novas, já mostrava que tinha muitos livros em casa. Depois que ele percebeu isso, ele desligou o sinal dela como prevenção e nunca mais deixou alguém entrar com caixinha na biblioteca dele. Por este fato ele até evitava convidar pessoas para sua casa.

Heitor percebeu também que o golpe que se armava era contra o conhecimento e ele começou a estranhar quando percebeu que o curso em que era formado foi simplesmente cancelado em várias universidades. A desculpa do governo era falta de estudantes. Isso era praticamente inaceitável. Só por ele nos últimos anos passaram-se mais de três mil estudantes e destes ao menos 50 haviam despertado interesse em continuar os estudos numa faculdade. Só com aqueles que ele havia iniciado já daria uma turma. A conta não fechava, ele não era o único professor de filosofia. Seus amigos professores relatavam a mesma coisa. Porém, estes não usavam a razão como ele usava. Desde a faculdade ele já se destacava do restante da turma, por ser super dotado no uso da razão.
  
Outro fator que o deixou bastante incomodado foi o caso do fechamento das bibliotecas, as pessoas poderiam ver seus livros, seus textos através das suas caixinhas. Ele não queria isso. Heitor sempre gostou dos livros fisicamente, por isso tinha uma biblioteca riquíssima particular na sua casa. Ele ficou muito inconformado com essa realidade do fechamento das bibliotecas, mas as pessoas simplesmente aceitaram porque afinal, ninguém ia mais às bibliotecas, era tudo feito pelas caixinhas. Heitor percebeu que havia algo errado, quando durante uma aula pediu para um aluno encontrar um texto famoso de Kant na sua caixinha e o texto não foi encontrado. Naquela aula, ele recorreu ao livro mesmo, afinal a pesquisa para o aluno era apenas um recurso didático. Mas ao chegar a casa foi pesquisar na sua caixinha, que não era das mais atuais para ver se encontrava. Não encontrou. Passou a procurar outros textos, como de Platão, Aristóteles, Agostinho, Sêneca, Descartes, e simplesmente não encontrou nenhum.


Ele foi falar com outras pessoas que tinham caixinhas mais novas para ver se encontrava, porém, o resultado foi o mesmo. É de fato, os conteúdos de filosofia estavam ficando escassos. É claro que as pessoas não saberiam nem sequer o que é filosofia. Foi falar sobre este problema com outros professores, que não matinha tanto contato, aí ele pode descobrir que muitos já não atuavam mais como professores de filosofia, ou tinham mudado o ramo de pesquisa para matemática ou tinham virado faxineiros, lixeiros, vendedores, desenhistas, escritores. E muitos bons professores tinham migrado de ramo de atuação. Aí foi só questão de tempo. Heitor percebeu que ele era o único que estava percebendo que as coisas estavam saindo dos eixos, que um golpe estava se levantando e que ninguém estava percebendo isso.

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